A frase é da cientista Ligia Moreiras, uma paulistana de 41 anos que faz da ciência coração. A pesquisadora coleciona títulos acadêmicos na carreira científica e usa seu amplo conhecimento (sempre baseado em dados) em prol de outras mulheres.

Moradora de Florianópolis há 15 anos, Ligia criou o site Cientista Que Virou Mãe depois que a maternidade bateu à porta e a lançou em um mar de opressões vivenciadas por quem é mãe no Brasil.

Formada em ciências biológicas pela UNESP, mestra em psicobiologia pela USP e doutora em neurociências e saúde coletiva pela UFSC, a cientista foi candidata à deputada estadual pelo PSOL em Santa Catarina na última eleição. A decisão em ocupar o espaço político foi inspirado pela vereadora Marielle Franco, assassinada em 2018.

Autora de três livros, atualmente oferece mentorias com uma visão científica, feminista e materno para outras mulheres. Tive a oportunidade de entrevistá-la e já adianto que cada fala desta mulher é um aprendizado. Boa leitura!

Como é ser uma mulher-cientista? 

É como ser mulher em qualquer outra profissão, especialmente em profissões que, por muito tempo, tiveram uma cara mais do homem, mais tempo dominadas por homens, onde mulheres foram silenciadas, onde mulheres tiveram seus trabalhos apropriados grande parte da história. Hoje a gente vive um movimento contrário a isso em que mulheres cientistas falam mais dos seus trabalhos, tem mais reconhecimento e aqui no Brasil nós somos a grande maioria dos cientistas que publica trabalhos. É um meio que por muito tempo teve os homens como mandatários, então nossa prática se confunde com a luta por visibilidade, com a luta por termos nossa voz ouvida e na luta de transformar nossas pautas políticas e de vida também em objetos de ciência. Então, ser mulher cientista é ocupar esse lugar que, por tanto tempo, nos foi negado como também em outras profissões. Por exemplo, eu sou cientista há mais de 20 anos, a minha primeira vontade profissional era de fazer engenharia aeronáutica no ITA (Instituto Tecnológico de Aeronáutica), mas precisei abrir mão desse sonho porque naquela época não aceitavam mulheres no vestibular do ITA. Daí fui pra uma outra área da ciência com outras possibilidades, mas isso não significa que menos patriarcal, menos machista. Se a gente vive em uma sociedade fortemente machista e patriarcal significa que essa estrutura impregna todas as áreas do conhecimento e a ciência é uma dentre tantas. Ao contrário daquelas áreas que sempre foram tidas como mais ligadas às mulheres porque são áreas do cuidado, do humano. A ciência que é uma área tecnológica e investigativa sempre foi um lugar pouco frequentada por mulheres ou as mulheres que lá estavam recebiam pouca visibilidade.    

Qual o ônus e bônus dessa profissão enquanto mulher?

O ônus é de termos que provar nossa capacidade, sermos julgadas, conviver com estereótipos e sexismo e o bônus é que temos uma grande oportunidade de transformar nossas lutas políticas, nossas pautas cidadãs em objeto de pesquisa, produzindo assim mais dados que fortaleçam a luta das mulheres. A gente vive hoje num paradigma científico, embora estamos enfrentando esse momento obscurantista, a gente ainda vive em uma sociedade que valoriza o paradigma científico. Se transformarmos nossa visão de mundo, a pauta política em ciência, então a gente consegue do ponto de vista da sociedade validar essas lutas, produzir dados, falar das condições de vida não só das mulheres como de outros grupos sociais oprimidos, então é uma imensa oportunidade de produzir dados confiáveis e precisos sobre a vida desses grupos sociais.

Quais mudanças precisam ser feitas para que mais mulheres ocupem espaços ainda dominados pelos homens como acontece na ciência?

Primeiro a gente precisa formar uma geração que se veja como detentora do direito de ocupar esses espaços. As meninas precisam ser incentivadas a ocupar quaisquer espaços profissionais e sociais que quiserem ocupar. A gente precisa criar essa cultura não sexista, feminista e não patriarcal, ocupar espaços é um direito de todas as pessoas. Para as gerações que estão hoje já no mercado de trabalho, a gente precisa criar condições de políticas públicas para que nós, mulheres, estejamos em todas as vagas de emprego, seja numa igual proporção de vagas, seja em iguais divisões trabalhistas. Uma grande medida seria uma licença parental no lugar da licença maternidade, isso evitaria que as mulheres fossem excluídas de processos seletivos apenas porque podem engravidar e precisam se afastar. Então, precisamos de educação comprometida com a equidade quanto com políticas públicas e com uma grande mudança de mentalidade social em que as meninas sejam criadas de maneira mais livre para serem quem elas quiserem ser, que os meninos também sejam parceiros nessa luta, acabar com esse sexismo na infância. Tudo isso ajuda as mulheres a ocupar mais espaços dentro da coletividade. Se a gente achar que determinado cargo foi feito para homens, menos mulheres se candidatam.

Você é doutora em ciências com foco na saúde da mulher. Quais são suas lutas nesta área?

Doutora em ciências com foco em neurociência e doutora em saúde coletiva com foco em saúde da mulher, especialmente estudando o impacto da violência na mulher e na criança. No segundo doutorado transformei minha luta civil como ativista em objeto de pesquisa estudando a violência obstétrica que é a violência que as mulheres vivem no momento do nascimento dos filhos. Entrevistei mais de 1300 mulheres em todo Brasil e produzi uma tese Ameaçadas e sem voz como num campo de concentração – A violência obstétrica no Brasil. Ela foi e ainda vem sendo utilizada como prova documental contra o Brasil por violação dos direitos humanos das mulheres. Transformei as condições de maternidade desde sua origem que é o parto e o nascimento em pesquisa científica acompanhando uma linha de pesquisa que tem mais de 30 anos aqui no país.

Houve uma virada na sua vida quando se tornou mãe, qual chave virou na sua cabeça depois da maternidade?

A chave virou no momento que eu tive maior contato com as condições de vida das mulheres aqui no Brasil especialmente as mulheres que são mães e também pelo fato de ser mãe de uma menina. Como sou cientista, eu vejo o mundo através da ótica científica, eu vou buscar informações de fontes confiáveis, eu estudo muito sobre todos os aspectos que me interessam. Fui estudar maternidade e me deparei com essa pressão imensa que existe sobre as mulheres brasileiras, esse racismo estrutural, as questões de classe e como isso nos desumaniza no país e isso me levou diretamente para os estudos feministas. Quando fui buscar informações sobre nossas vidas como mulheres, eu me deparei com a objetificação da mulher, com o corpo feminino tratado como receptáculo, com essa pressão pela maternidade como se fosse um dever das mulheres, com a infância tratada de maneira secundária subalterna. A criança é vista como um complemento da mulher e ela também vive opressões, silenciamentos, invisibilidades. Isso mudou muito a minha vida porque eu percebi que era preciso mais gente para lutar contra tudo isso, para transformar positivamente a sociedade.  

Você criou o blog ‘Cientista que virou mãe’ no intuito de compartilhar essa primeira experiência. Conta como foi esse processo.

Criei o blog com intuito de compartilhar essas reflexões e informações que fui tendo acesso. Informação no Brasil é um privilégio, não somos todos nós que temos acesso, especialmente num momento histórico em que fake news são divulgadas.  Meu objetivo era compartilhar boas informações de fontes confiáveis, que ajudassem as mulheres mães e suas famílias a refletirem coisas que nem toda mulher teve acesso, eu mesma antes da maternidade não sabia da condição social de ser mãe e vi como dever cívico de compartilhar essas informações. 

Muitas mulheres e mães passaram a te procurar para desabafar e pedir orientações, como funciona sua mentoria?

Há um ano dou mentoria e ouço as mulheres em suas demandas do ponto de vista de uma cientista que teve acesso à informações de neurociências que também é mãe e feminista. Juntei todos os conhecimentos e coloquei à disposição das mulheres através de consultorias especializadas. Faço sessões online de uma hora, acompanho essas mulheres, escuto, ajudo a processar as informações, contribuo com sugestões e práticas, traço junto à mulher planos e metas e elas acabam se sentindo mais seguras, apoiadas.  

criando com amor em tempos de ódio

“Criando com amor em tempos de ódio” é o terceiro livro publicado pela cientista Ligia Moreiras. (Foto: Reprodução)

Você é autora de três livros voltados à educação infantil, fale sobre eles.

Um é sobre educação não-violenta, outro sobre a vida das mulheres que viram mães e outro, lançado em 2019, que é o ‘Criando com amor em tempos de ódio’. Não classifico como educação infantil, classifico esses livros como a não violência aos direitos humanos. São livros que não se destinam apenas à educação das crianças, mas a nossa própria educação como adultos criados no ambiente de violência e numa sociedade que aceita e valida a violência. O último livro lançado fala sobre como educar crianças e adultos para que não sejam racistas, machistas e LGBTfóbicos. Fala sobre o impacto do ódio, sobre a infância e também sobre a coletividade, como que aconteceu essa virada de lidarmos uns com os outros de maneira odiosa, como olhar para o nosso próprio comportamento preconceituoso e discriminatório.  

Ser mãe é político? 

Ser mãe é um dos maiores atos políticos porque te coloca diretamente em contato com diferentes opressões, violências, anulações e não sendo mãe nós não temos acesso na própria pele. Digo mais, é um ato político duplo porque fala sobre vida de mulheres que se tornam mães e sobre crianças porque as crianças compõem um grupo social que não tem voz ativa na sociedade, a gente não vê, por exemplo, um movimento de reivindicação de direitos conduzidos por crianças, a gente vê ser conduzido por mulheres. As crianças ainda são vistas como um prolongamento da mulher e como nós somos subalternizadas, as crianças também são. Então é um ato político à medida que quando a gente educa crianças a gente educa uma nova geração que vai pro mundo com conceitos e ideologias, violências ou nao violências. Como diz nosso grandioso Paulo Freire “um ser não educa o outro, a gente se educa”. Quando a gente educa uma criança com violência, preconceito e discriminação isso significa que a gente também é assim, da mesma forma que se a gente educa uma criança para ser um agente de transformação positiva, não violento, empático, acolhedor e justo significa que a gente transforma também nossos valores neste sentido. É um ato político duplo a partir do momento que nos transforma enquanto mulheres e tem a capacidade de transformar o mundo através da educação das crianças considerando que a educação ainda é vista compulsoriamente como obrigação das mulheres, coisa que não é. 

Já há um movimento feminino acontecendo em que assuntos tabus estão sendo mais falados e questionados. Algumas mulheres não se calam mais. Como podemos fazer com que cada vez mais mulheres se engajem nessa luta por direitos?

Primeiro levando informação para todas as mulheres, lutando contra esse caráter elitista da informação e isso se faz com trabalho de base que é uma coisa que está faltando há muito tempo no Brasil e um dos resultados é tudo isso que estamos vendo em termos políticos. Em segundo é mostrar às mulheres que elas têm direito de falar e serem ouvidas, não desqualificar quaisquer que seja o discurso das mulheres em defesa de seus próprios direitos. Esses movimentos que as redes sociais vem puxando há alguns anos, #meuamigosecreto, #eutambém, tudo isso mostra para as mulheres que não tem problema falar sobre sua dor e a violência que viveu. A gente veio de muitas décadas de opressão das mulheres, em que nossos problemas em termos de violências que vivíamos e vivemos eram tidos como problemas íntimos, mas não é. A violência contra a mulher, o desrespeito aos direitos das mulheres é uma questão social ampla, estrutural, então nesse sentido o movimento ‘Meta a colher’ é extremamente importante. Uma frase que eu gosto muito é “uma sobe e puxa a outra” porque não estamos todas no mesmo patamar de preparo emocional e de força em função dos diferentes níveis de opressão que vivemos, então nisso que você puxa você ajuda as mulheres a lutarem pelos seus direitos. Dar voz a quem tem voz é fundamental de se fazer sempre priorizando um recorte de classe e raça. A voz prioritária deve ser da mulher negra, a mulher negra que é pobre e periférica porque sobre ela repousam séculos de opressão, violência, subjugação de seus corpos por isso temos que sempre manter isso em mente. Quanto mais falarmos, quanto mais cedo as meninas ouvirem mais cedo naturalizamos esse processo. Já estamos fazendo há um tempo ao ponto de sermos consideradas um tsunami em mudança do reconhecimento dos direitos das mulheres, de termos políticas públicas, agora estamos um pouco freadas porque estamos alcançando novos direitos, estamos lutando pelo que temos agora para não perder o que já conquistamos, mas continuamos na luta.     

 

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Por que decidiu se candidatar a deputada? Tentaria outra vez? 

Em 2018, eu decidi me candidatar a deputada estadual porque a partir do momento que o estado se torna conivente com assassinato de uma mulher negra como foi com a Marielle Franco, mulheres brancas com acesso a uma voz audível como é o meu caso têm obrigação em transformar seus privilégios em luta política. Pra mim foi difícil saber que tinha um relativo alcance entre as mulheres e eu não ia usar isso como elemento de discussão de pautas em um ano eleitoral tão importante como foi em 2018. Desde o início meu objetivo foi educativo, foi pra mostrar pra outras mulheres que a esfera política é um lugar que nos pertence também, especialmente para as mulheres que são mães que são infantilizadas na sociedade no sentido de serem subalternizadas, então eu quis ser candidata para falar mais sobre pautas que defendo como a maternidade, como a licença parental, como o direito ao parto respeitoso e seguro.

Não sei se vou tentar outra vez, ainda penso a respeito disso. Neste momento não, neste momento eu identifico como prioritário um trabalho de base, informacional para combater esse obscurantismo. Eu sou cientista eu preciso estar no meu lugar para que a ciência continue a ser ouvida em detrimento dessas crendices todas.

Quais objetivos para 2020?

Fortalecer meu trabalho de apoio às mulheres e mães, escrever mais, produzir mais conteúdo para esse momento difícil que estamos vivendo e viajar pelo Brasil discutindo as questões que eu trago no meu novo livro. Quero mostrar como engajar as crianças na luta anti-machista, anti-racista, anti-homofóbica, chamando as pessoas para serem elementos de multiplicação em seus círculos íntimos, quero fazer micropolítica da solidariedade do amor, estar com as pessoas, conversar com elas sem que as pessoas achem que esse meu trabalho tem a finalidade eleitoral. Isso foi muito doloroso para mim em 2018, ver que algumas pessoas diziam que o meu engajamento com a sociedade e com as mulheres era porque eu queria voto… eu faço isso há 10 anos, eu estive 9 meses em campanha, então quero voltar a fazer isso sem esse peso do voto. Essa dimensão política é muita agressiva com as mulheres, esse ano eu vou trabalhar na base para ajudar as pessoas a enfrentarem o ódio que estamos vivendo.

Qual legado você gostaria de deixar nesta vida?

São dois, o primeiro ser a mudança que eu quero ver no mundo, transformar uns pontos em mim que ainda representam opressões a outras pessoas porque quanto mais você se aproxima daquilo que você defende mais potência de transformação você tem. Isso eu aprendi com Paulo Freire, o conceito de práxis. Segundo que é deixar para as pessoas através também da minha filha essa questão de que é possível educar para a liberdade, para o respeito, para a humanização porque quando a gente educa um ser humano assim, a gente também se transforma.

Para quem tiver interesse em bater um papo ou fazer uma mentoria com a Ligia, entre em contato pelo e-mail: ligia@cientistaqueviroumae.com.br