Não me defina apenas como mãe

Em algumas das muitas leituras durante a gestação notei diversas vezes a frase: “quando me tornei mãe, passaram a me olhar como se eu fosse a Madre Teresa de Calcutá“. É como se as pessoas passassem a te respeitar mais e, ao mesmo tempo, a te condicionar ao rótulo de mãe.

É um pouco confuso. Para quem não é mãe pode ser mais difícil de entender, mas as festas de fim de ano me mostraram que é real. Deixa eu lhe contar minha experiência.

Minha família é maravilhosa, juntos já vivemos as melhores histórias e ressacas da vida. Daquelas que tudo é motivo para juntar, conversar, comer, beber e viver. Como a maioria das famílias brasileiras algumas questões antigas ainda estão enraizadas.

Entre os membros, muitas mulheres e mães que por um tempo ou se não a vida toda se deixaram de lado e se voltaram exclusivamente aos filhos. Tem também as que focaram tanto na carreira profissional que não se abriram ao envolvimento emocional e tem as que conseguiram equilibrar as duas coisas, apesar das muitas dificuldades.

Apesar de toda essa variação de personalidades femininas, uma coisa é certa: na visão delas, o casamento e a maternidade sempre foram questões essenciais na vida de uma mulher. Até hoje a tia que não casou é alvo de questionamentos e teorias conspiratórias.

Enquanto eu aproveitava minha vida loucamente até os meus quase 30, vez ou outra percebia que minha voz não era tão ouvida. Minha visão do mundo não era digna de silêncio para ser escutada com atenção. Ás vezes também nem eu tinha muita paciência para as conversas. Talvez elas também não… (pausa para o drama).

E aí veio a gravidez. Decidimos juntar as escovas de dente. A família toda feliz e já chamando o pai de marido. Tipo, engravidou, casou. Nem eu considerava ele um marido, ainda! Porque realmente eu não casei (diga-se no papel). Pergunto-me até hoje se eu tivesse decidido não continuar na relação como seria a reação dos demais. Sei que a preocupação seria maior porque é difícil criar um filho sozinha, que com uma pessoa ao lado para apoiar é melhor, se for o pai então… e ainda tem a questão financeira – que, by the way, é um dos fatores que mais prende mulheres em relacionamentos falidos, a dependência financeira, mas isso é assunto para outro post – pode até ser mais difícil ser mãe solo, mas não impossível e nem distante da nossa realidade, já que temos aí só no Brasil mais de 5 milhões de crianças sem pai no registro.

Com o nascimento da Antonela passei a notar um respeito maior, as mais velhas da família se aproximaram, talvez por agora se identificarem mais com minha versão materna, mas é como se esse rótulo valesse minha existência. Agora você é mãe! Como se isso me colocasse em um patamar maior na sociedade. Um “maior” que consegue ser ao mesmo tempo excluído de todo o resto. Louco!

– Você é mãe, agora não dá mais para ter vontade própria, agora você tem outras prioridades, não faça mais isso, não seja mais aquela pessoa, se atente ao seu comportamento, controla essa criança, etc…

32121686_207399630051503_5641290336132136960_n.jpg
Ilustração da Mary Chemi, artista russa e mãe de dois.

A maternidade te força a crescer, quase obriga. E isso é ruim? Não. Eu agradeço muito essa transformação, mas gostaria de deixar claro que minha essência continua a mesma. Ainda tenho sonhos que quero alcançar, objetivos, ainda tenho meu jeito de falar, ainda posso me vestir como quero, posso falar bobagens e nem ser a mãe perfeita, até porque isso nem existe.

É como se eu fosse vista agora apenas como mãe e não por quem eu sou, nem pelos meus valores. 24 horas mãe! Pode até parecer legal ser posta em um outro patamar, porém a questão é mais embaixo. Colocar a mulher apenas nesse rótulo de mãe apaga ou coloca à sombra nossos anseios particulares, como seres humanos. Sobrecarregam nossos ombros e “ai de você caso não dê conta de tudo”. Não basta a culpa materna diária, ainda temos que lidar com os olhares sociais. Tem momentos que é necessário priorizar o filho, sim, mas não toda e qualquer situação. Deixar totalmente de lado suas vontades é esquecer de si. Traz consigo a sensação de não capacidade, de não realização e isso minha gente, faz uma pessoa se tornar infeliz, consequentemente o filho também será afetado.

Além do que nem precisamos nos esforçar tanto, o sistema em si nos tira do mercado:

39762472_2362880340403677_9112765633866498048_o.jpg
Pesquisa FGV de 2017

Aliás, faço parte desta estatística. Tá fácil para nóis, né non?

Dito tudo isso, qual conclusão a que chego? Que a máxima africana é a mais pura verdade:

É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança.

Tirem essa carga diária de cima da gente, todos temos que seja uma mínima responsabilidade em educar também. O pai, os tios(as), os irmãos, o vizinho, os professores. Rede de apoio é essencial para uma maternidade mais sadia, mais que isso, para uma criança sadia. Colocar esse peso somente nas nossas costas é injusto.

Não precisamos dar conta de tudo, trabalho, casa, família.

Comece por você mesmo, mãe! Mude sua visão de maternidade, se dê um espaço, peça ajuda, ajude, trabalhe o amor próprio e pensa: “Isso vai me fazer mais feliz e melhor, então farei, quero ser o exemplo para o meu/minha filho/filha.” E vai!

Seja você a romper com as barreiras ancestrais, corte esse ciclo vicioso que acompanha sua família há gerações. Faça diferente, dê seu máximo e respeite seus limites.

Googla aí: crenças limitantes e liberte-se!

E para você que não entrou nesse mundo materno, AJUDE! Deixe sua ponta de contribuição e amor nesses serzinhos que estão vindo arrumar a bagunça que fizemos do mundo!

(Achei esse texto salvo há um ano no Rascunhos, terminei de escrever e tá aí <3).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *