“Ah! Estou fazendo um trabalho da faculdade, mas decidi fazer tudo sozinho porque o outro participante do grupo é preto, ele não vai dar conta”. A frase foi um choque pra mim, ali entendi que tinha me mudado para um dos estados mais preconceituosos do Brasil e pior, seus habitantes não tinham vergonha nenhuma em tecer certos tipos de comentários. 

Imigração européia, uma população branca em sua maioria, inexistência de políticas públicas voltadas aos negros e nenhum tipo de reparação histórica dão à Santa Catarina o título de estado com maior taxa de registros de injúria racial do Brasil, 1.060 denúncias só em 2018, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.

A eleição da primeira deputada negra do país, Antonieta de Barros, em 1934, parece ter sido um hiato na política catarinense, já que atualmente o cenário é demasiado branco. O resultado eleitoral de 2018 confirma: nenhum negro foi eleito no âmbito estadual nem federal. 

A desigualdade racial faz com que, em pleno século XXI, ainda sejamos testemunhas de conquistas inéditas da comunidade negra, como é o caso da artista Gugiê, primeira mulher negra a pintar um mural em um prédio em Santa Catarina. A grafiteira de 27 anos homenageou Antonieta de Barros com um retrato de 32 metros de altura no centro de Florianópolis. 

Diante do histórico excludente, a divulgação da produção intelectual de grupos historicamente marginalizados é vital. Enquanto mulher branca e cis e graças à leituras sobre o feminismo negro, entendo a necessidade de escuta da produção intelectual narrada por mulheres negras. Parafraseando Audre Lorde:

“Eu não sou livre enquanto alguma mulher não o for, mesmo quando as correntes dela forem muito diferentes da minha”.

Assim sendo tive o prazer de entrevistar Monique Cavalcanti de Souza, a Gugiê. Boa leitura!  

Mural em homenagem à Antonieta de Barros no centro de Florianópolis. (Foto: Diórgenes Pandini)

Ser mãe é um ato político duplo

Entrevista com Gugiê, primeira grafiteira negra a pintar um mural em Santa Catarina

Conta um pouco da sua trajetória com a arte e como se tornou grafiteira.

Cresci fazendo desenhos como forma de diário, também escrevia muito. Mas sempre fui do desenho. Meu pai é militar, mas sempre conviveu com arte, teatro e poesia dentro de casa. Eu passei minha infância vendo ele produzir grandes obras, fazer eventos, exposições, painéis grandes para teatro e até mesmo telas gigantescas lá em Brasília. Meus irmãos tem um talento maior para estética, eu achei que era mais deles do que minha essa vontade de trabalhar com arte. No fim, nós 3 somos artistas. Os dois são fotógrafos e eu artista visual. Fiz eletrotécnica no IFSC (Instituo Federal de Santa Catarina) sem saber muito o que queria ser. Eu sempre gostei muito de estudar e então eu fui gostando da elétrica, também tem uma parte muito criativa. Aprendi a desenvolver projetos e tudo mais. Formei, ia fazer vestibular, mas no estágio eu fui demitida, pois eu não tinha muita ambição, segundo minha chefe. Eu terminava o que tinha que fazer e ficava desenhando. Vi que não era como o chefe da minha chefe que chegava tranquilo, fazia com gosto os projetos, ficava feliz solucionando tudo. Então pensei “eu tenho que fazer o que eu gosto pra ser bem sucedida”. Paralelo a isso, eu dançava numa cia de dança de Garopaba onde eu entrei no mundo do Hip Hop onde fiquei até os 18 anos. Daí por diante eu segui na cultura Hip Hop com o grafite, comprei meus primeiros sprays e fui aprendendo sozinha a usá-los. Como o mercado do grafite funciona em Buenos Aires, fui pra lá conhecer alguns artistas e vi que era o que eu queria, voltei fiz vestibular para artes visuais e passei.  

No início da sua história com o grafite você conhecia alguma mulher que já grafitava aqui em Floripa e que te inspirava? Se sim, quem era(m)?

Eu pesquisei na internet e conheci a MADC, tinha aqui a Gis também, e logo em seguida conheci a Loiola. Mas a MADC foi quem me inspirou, não por ser mulher, mas pelo trabalho limpo, cheio de detalhes, é um trabalho impressionante, muito bem feito. 

Você imaginava que o grafite ia te proporcionar tantas boas oportunidades? 

Não imaginava que pudesse me dar um caminho para trabalhar com arte. E a vivência              é muito valiosa e rica em autoconhecimento, é o local onde eu conheço meu processo criativo.

Atualmente você consegue viver da sua arte?

Atualmente, sim. Sei que a medida que cresce o reconhecimento do meu trabalho também vem com ele grandes responsabilidades. E eu fico muito feliz com os desafios e oportunidades que surgem.  

Como surgiu o convite e como foi pintar o mural da Antonieta? 

A Tuane (grafiteira), primeiramente, me convidou para fazer um projeto e logo em seguida o Valdi uniu a um projeto dele e assim fizemos essa ação em conjunto. Desenvolvemos em 3 autorias o retrato da Antonieta usufruindo da identidade de cada artista para homenageá-la. 

O que esse mural significa para você? 

A Antonieta de Barros é uma mulher, negra, jornalista, posso dizer que artista também pois escrevia. Enquanto deputada ela representou muitas de nós, ela era força pura e ressaltar uma história como essa simboliza muito, inspira, traz essa força para cada um de nós. Tive a sensação de dever cumprido com tantos elogios e depoimentos de que foi essencial a presença dela nesta magnitude no centro de Florianópolis. Com tantos motivos para lutar, um ano que se teve tantos problemas na educação, na cultura. Para nós, negros, pra nós mulheres é importante se ver no retrato da Antonieta, isso traz força para superar os problemas, eu acredito nisso. A presença dela representa a nossa presença.

Quais dificuldades já enfrentou e ainda enfrenta como mulher, negra e grafiteira?

Como grafiteira não, mas como mulher e negra sim. Descaso, discriminação, inferiorização, desdém… E claro que isso já ocorreu enquanto eu pintava, mas não por causa do grafite e sim porque sou mulher e negra. No grafite criei um espaço de transgressão, onde felizmente consigo fazer meu trabalho independente dos outros. Eu tenho consciência de que nesse assunto sou uma exceção e que muitas mulheres passam por diversas situações que impedem seu crescimento e desenvolvimento na arte. Isso acontece muito na sociedade, homens e mulheres, no dia a dia, que não me conhece e discrimina. “Você está pintando também?”, “você que fez tudo isso sozinha?” Escuto muito isso.

Como é ser inspiração para outras mulheres? 

Me sinto responsável em ser verdadeira. Também sou mãe e não posso negar que não é fácil, não é certo ter que lutar tanto para ser quem sou ou simplesmente fazer meu trabalho. Ainda temos muitos condicionamentos, ainda existe racismo e machismo. Mas não posso esquecer de citar que tenho bons amigos ao lado, bons colegas que, além de ser grandes artistas, são pessoas que me incentivam e respeitam meu trabalho, independente da minha vida materna, por ser negra e mulher. O meu trabalho criou vínculos com algumas pessoas e elas me vêem através dele.

Como é sua rotina depois que se tornou mãe? Como concilia trabalho e criação?

Pensando sobre isso eu percebi que ao mesmo tempo que existe uma rotina ela não existe, pois conforme as crianças vão se tornando mais autônomas isso vai gerando outras. São muitas fases que vamos nos adaptando. Temos duas bebês, uma de 11 meses e outra de 3 anos. A Lia já está numa escolinha, mas a Cássia que é mais nova ainda não. Então eu e meu marido revezamos para trabalhar. Ele é músico e eu artista visual então apesar de termos uma certa flexibilidade, ao mesmo tempo temos que estar em constante estudo, projetando, criando, compondo e ele tem apresentações e tenho pinturas, murais para fazer. É bastante cansativo e a carga mental também é puxada, por sermos autônomos, exige muita organização. Mas apesar da loucura que é o dia a dia ficamos felizes por acompanhar cada passinho da evolução delas, ir conhecendo elas aos poucos, cuidar de cada detalhe. Usamos muita criatividade e emoção para lidar com os desafios o dia a dia. 

Aonde você quer estar daqui alguns anos?

Eu quero estar participando de festivais e estudar algumas técnicas fora do país também, pintando grandes murais. Quem sabe ativando alguns projetos de arte e tecnologia.  

Nas redes: @gugie.art