Exausta, Lúcia colocou a filha de 9 meses no carro e escreveu uma mensagem: “Estou a levando para o hospital, a febre não passa”. Era uma noite fria de inverno,  as ruas vazias e o silêncio dentro do carro, davam espaço para os pensamentos de Lúcia vagarem. 

Só tem uma fralda na mochila. E se o atendimento demorar? Pelo menos trouxe biscoito e o brinquedo que ela mais ama. Devia ter pegado aquele casacão azul. Que horas eram quando dei a última dose do remédio da febre? Esqueci de levar o lixo pra fora. A Sueli deve estar péssima. Sem emprego e com um bebê de sete meses. Virou estatística pós licença-maternidade. Amanhã ligo pra ela. 

Entre sinais verdes e vermelhos, por destino ou coincidência, Lúcia decidiu mudar o trajeto e seguiu em direção ao hospital público mais próximo, mesmo sendo alta a chance de encontrá-lo lotado de crianças chorosas e pais impacientes. 

Ao chegar deu de cara com a recepção quase vazia, contabilizou seis crianças e, aliviada,  deu entrada.  

Durante a espera, lembrou do noticiário da TV no dia anterior, casos de sarampo havia aumentado na cidade. Passou a observar todos ao redor. Analisou cada criança, os sintomas aparentes e deu diagnósticos de cada uma delas. Ao menor sinal de doença contagiosa, correria dali em instantes.

Aquele ali está muito quieto. Apesar de acordado, não sai do colo da mãe, deve ser febre. Já aquela não para de chorar com as mãos nas orelhas, dor de ouvido. Esse não para de correr e pular, no máximo, uma alergia de pele.

Apesar da demora no atendimento, o plano da mãe parecia dar certo, a filha estava distraída com um brinquedo na mão e um biscoito na outra.   

Checou o celular para ver se tinha alguma mensagem. Nada. Filho da puta!

Enquanto rolava a tela sem parar, uma mulher entrou gritando em desespero:

– MOÇO, ME AJUDA! EU ACHO QUE MEU FILHO ESTÁ MORTO! ELE NÃO ESTÁ RESPIRANDO!

Lúcia sentiu um frio na espinha. Um homem entrou com um menino desacordado nos braços. Uma das pernas arrastando no chão. Pelo tamanho do corpo devia ter uns doze anos. Uma enfermeira apareceu e ajudou a levar o garoto para dentro. Tudo aconteceu muito rápido.

Lúcia então olhou para sua filha, ainda distraída e agradeceu por aquelas crianças serem pequenas o suficiente para não entenderem o que acabara de acontecer ali. 

Um silêncio ensurdecedor tomou conta da recepção. Todos observavam os pais do garoto que andavam de um lado para o outro esperando notícias.   

Junto ao casal tinha uma menina de no máximo 1 ano. Calçando apenas meias, era passada de um colo para o outro. Ainda havia outro menino, de uns 5 anos de idade, o cabelo era parecido com do irmão. Lúcia reparou que ele calçava uma sandália com detalhes em strass bem maior que o pé. Devia ser da mãe. Então imaginou a correria que devem ter saído de casa. 

– Mãe, como está o Luan?

Na tentativa de entender a situação, médicos e enfermeiros apareciam para fazer algumas perguntas.

– Posso falar com alguém para saber como ele está? – o pai insistia.

O segurança do hospital se aproximou e informou que o atendimento pediátrico estava interrompido. Todos os médicos estavam voltados ao atendimento do garoto recém-chegado, o estado era crítico e pediu paciência.

– Claro. Sem problemas. Salvem o menino. – Lúcia respondeu para si mesma.

A morte nunca é querida e às vezes chega na forma de jaleco branco e estetoscópio em volta do pescoço. Um grito desesperado foi ouvido. 

– Meu menino, não. Meu filho. Jesus!

A voz ecoou, se alojou nos pelos arrepiados e acertou em cheio o estômago dos ouvintes. 

O tempo parou por um instante, tudo passou a ser visto em câmera lenta. Um sentimento sufocante tomou conta de Lúcia. O menino está morto mas como assim ele é tão pequeno ele tinha tanto pra viver e se isso acontecer comigo nem pensa nisso Lúcia nem pensa. 

Enquanto tentava respirar, uma sensação desconhecida tomou conta de seu corpo. Tudo formigava. Inesperadamente, aquela dor deu lugar a uma paz e leveza. Sentiu uma grande necessidade de ir até àquela família. Como se alguém a guiasse em meio ao caos, levantou-se e atravessou a porta de vidro. Olhou para o chão, parecia flutuar. 

Lá fora uma mãe desolada gritava, Lúcia a abraçou, mas em um lapso de realidade, a mulher se soltou e voltou a gritar.

A irmãzinha estava aos prantos ao ver a mãe naquele estado já o menino estava desnorteado. Com a chegada da psicóloga do hospital, Lúcia retornou à recepção.

O atendimento havia sido retomado e sua filha enfim foi chamada pelo pediatra. Continuar a vida teve um gosto indigesto.

Ao sair do consultório reparou que a família continuava ali. Por hoje chega. Seguiu pra casa.

No dia seguinte, aliviada com a melhora da filha, a deixou na creche e foi trabalhar. Logo quando chegou, recebeu a notícia… tinha virado estatística.